E depois que acaba?


Depois que meu pai faleceu, essa pergunta surgiu na minha cabeça. Enquanto recebia as condolências e todos estavam mergulhados naquela atmosfera de tristeza, eu olhava o caixão e pensava em tudo que vivemos, em tudo que podíamos viver, nas coisas que deixamos de dizer um ao outro, nos momentos que não compartilharíamos mais, enfim, realmente passa um filme na cabeça que dura alguns segundos. No fundo eu sabia que não adiantava pensar muito sobre, pois havia acabado ali um pedaço da minha história. 
Todas as noites que passei no hospital foram difíceis, não sei explicar tudo que senti enquanto ajudava a cuidar do meu pai, nem tudo que me passava na cabeça nos momentos de medo, eu apenas agia. Tinha que limpar as fezes? Vamos lá. Tinha que dar comida na boca? Vamos lá. Dar banho, trocar fralda, dar remédio, falar uma besteira ou outra pra descontrair, vamos lá. Me sentia em um looping eterno, nossa vida se resumia a pensar que um dia aquilo acabaria e estaríamos de volta a nossa casa apenas lembrando dos momentos ruins como coisas do passado. Não foi bem assim que aconteceu...
Eu me sinto mais feliz em ter podido ouvir do meu pai que eu era uma filha perfeita (apesar de saber que faço muita merda e ainda vou fazê-las por toda a vida) e ter respondido que ele quem era um pai perfeito. Poder ter segurado em sua mão durante um procedimento difícil, dolorido e complicado e dizer: "Pode apertar minha mão com força, não tem problema". Termos chorado juntos, quando ele descobriu que o câncer voltara com força total, ter rido juntos quando ele teve alta. Lembro quando ligava o spotify com músicas sertanejas ou do Elvis pra que ele ouvisse e talvez fosse levado para uma lembrança boa me faziam sentir forte por estar tentando melhorar um pouco a rotina triste que ele tinha. Me revoltei com Deus por aquilo estar acontecendo e depois percebi que apesar dos momentos ruins, nunca fui tão próxima do meu pai como fui durante seu tratamento neste tempo. Foi bom ter tido a chance de ficar mais próxima dele, perceber como sua presença faz uma falta que nunca será preenchida ou esquecida. Sua morte me deixou com vontade de melhorar meu lado materno, por que é o certo e os pais devem fazer isso por seus filhos: Tentarem ser melhores pessoas.
A vida é um processo tão grande e tão cheio de detalhes que eu não conseguiria explicar em qual parte do todo eu me encontro agora. Tem dias que acordo e sinto que tudo vai dar certo e outros em que acordo e sei que vou ter que me esforçar pra chegar ao final do dia bem. Também ando me questionando muito sobre a real necessidade em ser alguém de sucesso se no final vou morrer. 
E o que acontece depois que a vida de alguém acaba? Posso dizer que estou descobrindo como a minha continua, como os outros ao meu redor afetados pela perda estão seguindo e que a perda nunca deixará de doer. Tenho tido dificuldade em acreditar em muitas coisas, mas sei que tudo faz parte do processo (é um ciclo de renovação). 
Reaprender faz parte. Umas partes dentro de mim morreram e vão voltando aos poucos, outras eu sei que não voltarão nunca mais. Eu tenho a esperança de que meu pai esteja bem e seguindo em frente também, afinal ele (onde quer que esteja) terá que descobrir o que acontece depois que acaba uma etapa da vida. 
Independente de todos os questionamentos, sou grata por quem ficou.
Não há escapatória senão viver. 
E continuo assim: um dia de cada vez, respirando fundo e com a esperança no coração de que tudo deve continuar mesmo quando acaba.

Comments

  1. Eu desejo que você passe por esse processo de redescobrimento, e que tire proveito de todas as etapas, se revoltar também faz parte, mas não esquece que seu a pai a via/vê como a filha perfeita, se não quiser ser por você, então seja por ele, assim mesmo, com todas as suas imperfeições. Somos humanos Bcts e isso é a coisa mais incrível do mundo. Amo Tu!

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